Em seu primeiro discurso após a posse, em maio de 2016, o Presidente da República Michel Temer, mencionando um cartaz que teria visto num posto de gasolina, disse: “Não fale em crise, trabalhe”. Em abril de 2017 o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, noticiou que o número de desempregados no Brasil já ultrapassava a cifra de 14 (catorze) milhões de pessoas. No dia 04 de maio de 2018 Temer participou de um evento da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo, onde falou que o desemprego no país não teria crescido em seu governo, mas sim teria aumentado “o número dos que procuram emprego”. O fenômeno, de acordo com Temer, acontece porque trabalhadores estão mais ‘alentados’ com a economia. Tal afirmação rendeu a Temer, inclusive, uma proposta de emprego no Site Sensacionalista quando este deixasse a Presidência da República em 2019. O “Sensacionalista” é um site de humor, com notícias fictícias, autointitulado “isento de verdade”.

Todavia, para os 14 milhões de desempregados brasileiros não era tão simples conseguir um novo posto de trabalho, como o fora para Michel Temer ao assumir a Presidência da República, e o será em 2019, caso aceite a proposta do Sensacionalista.

Entretanto, até mesmo os já empregados estão intranquilos com a situação econômica do país. Em setembro de 2017 Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria indicou que o “medo do desemprego” atingiu o segundo maior índice da série histórica brasileira, 67,7%, sendo que a média, analisada pelo CNI desde 1996, era de 49,0 pontos.

Nesta ambiência, agravada pela flexibilização da legislação trabalhista, na qual a maioria dos trabalhadores teme pelo desemprego, enquanto outros 14 milhões sobrevivem a custas de subempregos, nos perguntamos se seria possível encontrar felicidade no ato de trabalhar, especialmente na era do trabalho mecanizado?

A pergunta ganha ainda mais sentido quando se conhece a origem da palavra “trabalhar”. A mais aceita remete ao latim vulgar “tripaliare”, que significa “torturar”. Remonta ao “tripalium”, um instrumento de tortura, composto de “três estacas”. A origem da palavra traduziria, portanto, a tortura que é para muitos ter que trabalhar, dia após dia, até a aposentadoria.

Os 14 milhões de desempregados, por sua vez, poderiam dizer que somente o fato de conseguir um emprego já seria razão suficiente para felicidade.

Todavia, pesquisas indicam que dos que possuem emprego, a maioria se diz insatisfeito com o seu próprio trabalho. Pesquisa da Isma Brasil (International Stress Management Association), realizada em 2015, mostrou que 72% das pessoas estavam insatisfeitas com o trabalho. Segundo a pesquisa, a insatisfação em 89% dos casos tem a ver com reconhecimento, em 78% com excesso de tarefas e em 63% com problemas de relacionamento.

Em 2015, 72% dos trabalhadores brasileiros estavam insatisfeitos com seu próprio trabalho (International Stress Management Association).

Dentre outras razões, este fenômeno teria se acentuado na modernidade por conta da “mecanização” do trabalho e da consequente perda de sua natureza autoral. Segundo Mario Sergio Cortella, na obra “Por que fazemos o que fazemos?”, o trabalho poderia ser “sintetizado como ação transformadora consciente”. Todavia, “desde a Revolução Industrial, o mundo do trabalho ficou extremamente marcado pela máquina, reforçando a noção de trabalho alienado. O automatismo, esse modo automático de ação, tem como consequência a alienação da execução”. Cortella sustenta que a “intencionalidade da pessoa não está naquilo que faz, ela não tem consciência direta do que produz, está fazendo algo automaticamente”. Ainda segundo Cortella: “se o indivíduo fizer as coisas de modo automático, robótico, isso levará a um processo de alienação, de perda de si mesmo”. A dimensão autoral trabalho seria perdida, sendo que o trabalhador se desumanizaria, aproximando-se do mundo das máquinas.

Cortella finaliza que as pessoas precisam se reconhecer nas atividades que exercem, eis que os indivíduos se realizariam na medida em que se identificassem com suas obras.

Assim, o problema do reconhecimento é uma via de mão dupla, eis que as pessoas devem se reconhecer nas atividades que exercem, as quais prezam também que os seus trabalhos tenham o devido reconhecimento de terceiros, especialmente de superiores hierárquicos, já que a pesquisa supracitada indica que a insatisfação dos que não estão felizes no trabalho em 89% dos casos tem a ver com a falta de reconhecimento profissional.

Todavia, a porta do reconhecimento, a nosso ver, é daquelas que somente podem ser abertas pela parte de dentro. Assim, nos parece que o primeiro passo é o abandono do trabalho alienado, que impede o autoconhecimento da obra pessoal. O indivíduo precisa se reconhecer no trabalho que exerce.

Reportagem da BBC Brasil, publicada em maio de 2018, intitulada “O conselho de Stephen Hawking para se ter uma carreira feliz”, a partir de uma frase do físico recém falecido defende que as pessoas deveriam buscar um trabalho com significado e propósito.

Hawking afirmou em entrevista que: “o trabalho proporciona significado e propósito, e a vida é vazia sem isso”. A partir desta formulação, a reportagem indaga: “A vida fica realmente vazia sem um emprego que não apenas pague as contas, mas também propicie realização e satisfação pessoal?”. De acordo com a BBC, um “estudo da professora Teresa Amabile, da Universidade de Harvard, mostrou que ‘não importa o tamanho do objetivo – encontrar a cura do câncer ou ajudar um colega –, ter um senso de significado e uma sensação de progresso podem contribuir para a felicidade no local de trabalho”.

A execução automatizada de uma tarefa profissional, nesse diapasão, nunca permitiria ao trabalhador identificar um significado e um propósito do seu lavoro diário.

Sem querer discordar de Hawking, ou da interpretação que foi dada a sua fala pela BBC, acreditamos que o trabalho, por si somente, já teria o condão de possibilitar aos indivíduos o atingimento de parcela de felicidade, o que muitos ignoram solenemente, independentemente da maior ou menor nobreza das atividades desenvolvidas.

Sigmund Freud, no livro “O mal-estar na cultura”, afirma que “nenhuma outra técnica de condução da vida ata o indivíduo tão firmemente à realidade quanto a insistência do trabalho, que ao menos o inclui com segurança numa parte da realidade, na comunidade humana. (…) E, no entanto, o trabalho é pouco apreciado pelos seres humanos como caminho para felicidade. Não se acorre a ele como a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria dos seres humanos trabalha apenas sob coação, e dessa repulsa natural dos homens ao trabalho derivam-se os mais graves problemas sociais”.

Não que o trabalho seja a única fonte de felicidade mas decerto não deveria ser fonte exclusiva de infelicidade, como o é para muitos.

Freud, na mesma obra, adverte: “Do mesmo modo que o comerciante cauteloso evita investir todo o seu capital num só lugar, assim talvez a sabedoria da vida também aconselhe a não esperar toda satisfação de uma só aspiração”.

Assim, o trabalho não deve ser fonte exclusiva de satisfação, muito menos de insatisfação.

Especialistas em mercado financeiro, por exemplo, sempre recomendam a diversificação da Carteira de Investimentos. Ou seja, não se considera prudente investir todos os recursos financeiros de uma pessoa numa única espécie de investimento, seja poupança, imóveis ou ações. A diversificação é uma estratégia de administração de riscos.

O mesmo ocorre com a felicidade, que não deve ser buscada apenas no trabalho, na família, no futebol ou no lazer. Deve-se diversificar a carteira de investimentos da felicidade, não devendo ser esquecida a parcela de satisfação pessoal que podemos auferir no desempenho de nossas atividades laborativas, independentemente da maior ou menor nobreza destas, mesmo porque dedicamos mais de um terço dos nossos dias úteis aos nossos empregos e aos deslocamentos necessários para tanto.

O sonho de muitos é ficar rico e deixar de trabalhar, principalmente por conta da associação do trabalho à tortura. Todavia, como adverte personagem do “Livro dos Títulos”, do ator, humorista e escritor Pedro Cardoso, “essa é uma conquista que toda pessoa que enriquece se acha no direito de usufruir. Abdicam de suas atividades anteriores num gesto de altruísmo. Convêm-lhes esquecer que fazer o que se gosta é o maior luxo de todos os que há!”.

Por fim, como adverte João Guimarães Rosa, na obra “A hora e a vez de Augusto Matraga”: “Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria… Cada um tem sua hora e a sua vez: você há de ter a sua”.

Pablo Almeida* – 15/05/2018

* Pablo Almeida é promotor de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia, titular da Promotoria de Justiça especializada em Meio Ambiente de âmbito regional com sede em Jacobina.

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Ao citar esta obra, utilize a seguinte referência (segundo NBR 6023:2002): ALMEIDA, Pablo. Não reclame, infeliz, trabalhe!. NUGOJ – Leitura. Disponível em <https://nugoj.org/leitura&gt;. Acesso em: dd.mmm.aaaa.